
Desde que esta família entrou no hospital, chamou à atenção, o pai e a mãe da Leonor tinham ambos um problema de visão, a mãe era invisual e o pai tinha uma capacidade visual total de aproximadamente 15%,mas a esposa sempre dissera que ele tinha bastante orgulho nisso, negava-se a usar bengala e na rua era ele quem a orientava.
Admirávamos a forma como combinavam as roupas da Leonor que andava sempre vestida como uma bonequinha, ou melhor como uma princesa, pois era assim que eles carinhosamente a chamavam. Depois de terem alta, os nossos pensamentos foram ocupados com outras crianças com problemas que entravam diariamente no serviço.
Mas num dia de chuva, a caminho do hospital, encontrei no meio da multidão anónima uma figura que me despertou a atenção, um homem que andava pelo passeio, sempre encostado à parede dos prédios, sem pressa e sem chapéu... o Pai da Leonor!
Continuei a minha viagem no autocarro até ao hospital e lá tentei saber se a Leonor tinha voltado... Contei o que vi e uma colega da copa de leites contou-me que todos os dias,ás três da tarde, fosse Outono, Inverno, Primavera ou Verão, aquele homem percorria meia cidade para ir buscar o leite para a sua filha, a menina tinha uma intolerância alimentar e só se com uma mistura especial,preparada no hospital. Como era uma família com algumas dificuldades económicas, o pai vinha pé, mas chegava sempre bem disposto, com um grande sorriso e uma novidade da sua princesa.
Anos mais tarde, voltei a encontrá-los, ou melhor eles é que me encontraram, foram ao hospital visitar-nos e mostrar a sua menina, o seu orgulho como disseram. Era uma menina muito alegre, boa aluna e muito responsável,segredou-me a mãe ao ouvido.
Na despedida, a mãe disse-me uma frase que guardei para sempre:
-Nós temos um acordo com a Leonor, nós damos-lhe as coordenadas para a vida e ela orienta-nos nas ruas da cidade.

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