domingo, 1 de novembro de 2009

É FÁCIL GUARDAR A SEMENTE DE AMORES PERFEITOS



Adorava aqueles fins de tarde sentado na varanda, aquecido pelos últimos raios de sol do dia e ouvido os ruídos vindos do cais, os barcos anunciando a sua chegada ou partida, as gaivotas que acompanham os barcos que vêm da faina cheios de peixe... Artur fechava os olhos e inspirava suavemente o cheiro a maresia e descia as mangas do casaco, fechava os olhos e tentava imaginar o cais a esta hora, aquele exercício dava-lhe uma sensação de segurança, imaginava todos os pormenores como se fosse um pintor a recriar numa tela a imagem que tinha na memória da sua musa inspiradora.
Da cozinha, vinha um aroma quente e doce. Artur já sentia a água crescer-lhe na boca adivinhando o sabor da geleia de framboesa que fervilhava ao lume e que Dolores mexia com toda a dedicação e paciência.
Artur abriu os olhos e procurou a sua companhia dos silêncios de fim de tarde:
_ Maria?Maria?
Levantou-se da sua cadeira e gemeu com as suas dores nas costas vergadas ao peso dos anos. Procurou nos cantos favoritos da Maria,no cesto alto de vime com tampa que fica ao fundo da varanda, no qual a Maria entra quando quer ficar horas a dormir sem ser incomodada... Entrou na sala olhou para a lareira onde a Maria fica imóvel tentando imitar uma peça de decoração de tal modo que olhando com menos atenção não a identificamos com um ser vivo... Abriu a porta do quarto e procurou no guarda-fatos, quando a Dolores se esquece das portas abertas, é esse o seu esconderijo do seu jogo favorito...Nada!
Artur voltou-se para a cozinha e gritou:
_ Dolores vistes a menina?
_ Não, há horas que não a vejo, mas tenho estado aqui tão ocupada...
Dolores e Artur estavam casados há 64anos, eram um casal feliz e unido, havia apenas um aspecto que assombrava um bocadinho essa felicidade, nunca tiveram filhos, Deus tinha-lhes dado um amor imenso um pelo outro, mas tinha-lhes vedado o direito de ter filhos, mas há cinco anos tinha vindo ter à sua porta uma gatinha preta com uma mancha branca no focinho que parecia ter acabado de beber uma tigela de leite, com um olhar esperto e meigo, então a Dolores olhara para Artur e não precisaram de dizer nada um ao outro, seria a sua Maria, a filha que sempre desejaram e nunca tiveram.
A relação de Maria com Artur era de uma cumplicidade sem par, quando Artur saía, ela miava à janela até ele desaparecer na esquina do prédio, quando ele regressava ela miava à volta dos seus pés, até ele lhe pegar ao colo e falar com ela com tanto carinho que parecia que cada um falando na sua língua, conseguiam-se entender na perfeição, ele estragava-a com mimos e ela adorava.
Com Dolores, Maria tinha uma relação de mais respeito, entendiam-se no mais profundo silêncio, Maria preferia o colo de Dolores e era a ela que Maria puxava a manga do casaco quando queria atenção.
Artur abriu a porta do atelier da esposa, por todo lado viam-se montinhos de tecidos de todos os padrões imagináveis, que a esposa coleccionava para as as mantas de retalhos que fazia nas horas vagas, olhou em volta, no meio do quarto, por baixo do candeeiro enorme do tecto observou a velha máquina de costura com que Dolores costurara durante os últimos trinta anos, segura por um lado pendia uma colcha prestes a ser terminada aproximou-se e vislumbrou, no meio da manta, um volume numa dobra na manta...Levantou lentamente a colcha e arregalou os olhos, debaixo da manta recebeu no seu olhar a imagem da sua Maria de olhar cansado e ternurento:
_ Calma filha vai correr tudo bem!- disse afagando-lhe o pêlo e observando a sua respiração cansada.
Ergueu-se devagar e virando a cabeça e direcção à cozinha sussurrou suficientemente alto para que a mulher ouvisse:
_ Dolores! Vem cá depressa! A nossa menina! Vem cá!
Dolores percebendo a aflição na voz do seu marido, saiu da cozinha enxugando as mãos ao avental e dirigiu-se, em passo apressado, em direcção ao chamamento de Artur. Encontraram-se a meio do corredor, Artur agarrou as mãos da mulher, olhou-a nos olhos e deixando cair uma lágrima, balbucia:
-Dolores, já somos avós!

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